A vitimização do culpado

Gambe4Women
3 min readOct 13, 2021
Photo by Tiago Bandeira on Unsplash

Não existe nada mais irritante no meu mundo do que quando alguém quer criar uma nova narrativa para algo que aconteceu, alegar fatos inexistentes ou não assumir sua responsabilidade numa situação.
Infelizmente esta técnica é muito usada nos tribunais de família.
Eu compreendo que pessoas diferentes têm percepções diferentes sobre acontecimentos, porém em alguns casos, é uma questão de fatos objetivos. Afinal, dificilmente um culpado pode virar vítima.

Além de vários outros problemas em varas de família pelo muito temos algo que acaba tocando mais de perto as famílias multiculturais e crianças binacionais: artigo 28 do Tratado de Haia que trata da subtração internacional de menores.

Eu conheço este parágrafo muito bem e conheço inúmeras histórias, tudo por causa do trabalho voluntário que faço há mais de 6 anos no GAMBE.

Então já vou começar o texto dizendo: este tratado está desatualizado e não representa o superior interesse do menor em muitos casos.

Mulheres e crianças sofrem abusos, muitas vezes ainda são punidas porque não existe sensibilidade à questão. O sistema age levando em consideração o interesse do abusador e muitas vezes descaracteriza os abusos sofridos por mulheres e, indiretamente, pelas crianças.

Pergunte-se a si mesmo e às amigas se vocês chamariam a polícia para denunciar um caso de violência psicológica. Tenho muita firmeza ao afirmar que a maioria das respostas a esta pergunta é: NÃO. E a justificativa? Não creio que acreditariam em mim.

Violência doméstica é um crime que ocorre entre 4 paredes e na proteção (ao abusador) do próprio lar. Como resolver então o conflito entre a presunção de inocência e a valoração da palavra da vítima? E como garantir que o próximo alvo direto de abusos psicológicos não sejam os próprios filhos se o pai tiver acesso livre a estas crianças?

Muitas vezes as mulheres estão desamparadas, fora de seus países, e algumas vezes recebem orientação errada de advogados locais que desconhecem tratados internacionais. Sendo assim, não veem outra saída, mas retornar aos seus países de origem, com suas crianças, mesmo sem autorização do genitor da criança (quando falo autorização é um documento notarizado ou judicial mesmo sem autorização de mudança e não de viagem de férias).

Tem também casos de mulheres que fizeram um acordo verbal com os pais de suas crianças e seguem para suas novas vidas e depois, o cidadão muda de idéia e aciona o tratado.

Não existe crueldade psicológica maior do que usar crianças como ferramenta de controle da ex-mulher. Acredite, fui vítima deste tipo de abuso pessoalmente e vejo diariamente outras mulheres no mesmo barco. E não somos somente brasileiras neste grupo não, temos nacionalidades diferentes. As mais variadas.

Todos os dias no mundo tem uma criança sendo usada como ferramenta de controle.

Hoje, li uma notícia que me deixou irada. A história de uma mãe brasileira que acabou de ver seu filho ser devolvido para o pai, um cidadão que foi violento (e condenado pela violência). Mas isso não foi considerado. Aliás, não foi nem mencionado pelo autor da matéria que diz que ouviu a história da atuação da AGU diretamente do próprio advogado da União. Baseados neste artigo, um tal site de notícias intitulado Migalhas, escreve também uma obra prima (spoiler alert: contém ironia). É vergonha alheia que fala, né?

Esqueceram de mencionar que o pai FOI CONDENADO por violência doméstica física. Aliás, este não é um excludente de Haia?

Sim, deveria ser uma situação onde o acordo internacional não se aplica. Porém, a AGU aparentemente não leu aquele parágrafo do tratado.

O pior, não para por aí. Passaram-se 2 meses e esta criança está com pessoas que mal conhece, num país que não conhece e ouvindo uma nova língua em volta dele e quem disse que a mãe está tendo acesso a ele? Parabéns novamente aos profissionais da AGU por tomarem a melhor decisão considerando o superior interesse da criança que nem 4 anos tem ainda.

Penso todos os dias neste pequeno que deve estar muito confuso e se sentindo abandonado.

PS: a autora tentou contato com o site MIGALHAS sem sucesso.

PSII: Quer ajudar a mãe a tentar reaver contato com seu filho? Colabore com a vakinha online.

Por: Stella Furquim

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