I just killed my father

Gambe4Women
5 min readAug 20, 2022

by Stella Furquim

**Contém spoilers**
Acabei de assistir a nova minissérie do Netflix, baseada na história real do garoto Anthony Templet.
Como diz o título, o garoto de 17 anos matou o pai.

Logo de início a série já me traz vários gatilhos. Anthony, após atirar no pai na casa em que viviam sozinhos, liga para o serviço de emergência e confessa.

A polícia chega ao local, detém Anthony sem que o mesmo resista. Nas palavras dele: achava que iria impedir meu pai de me matar, que ele iria para o hospital e depois retornar para a casa enquanto isso eu teria a chance de me explicar e sair da casa para sempre.

Ao invés disso, a polícia encontra uma casa imaculada, “sem nem uma louça suja na pia” e um garoto que acabou de matar o pai mas não demonstra nenhuma emoção.

EMOÇÃO E CONTROLE

Eu vejo a emoção nele, comento em voz alta como se os policiais da série pudessem me ouvir que o garoto demonstra um jeito meio estranho de se portar e também, ninguém o questiona sobre a mãe dele.

A razão da suposta briga que acabou em assassinato, foi porque Anthony falou com a ex-madrasta pelo telefone sem permissao do pai. Então quando o pai foi revistar o telefone do menino e viu a ligação, partiu pra cima do garoto que acabou fugindo e se trancando no quarto do pai.

O quarto do pai é o único lugar de dentro da casa e do exterior imediato da casa que não é supervisionado por câmeras. Mas isso não chama atenção da polícia. Eles acreditam que é por segurança. Também não questionam (ao menos em câmera) o fato da confusão toda ter se iniciado com o pai revistando o telefone do filho de 17 anos e ficando furioso porque ele falou ao telefone com a mulher que ocupou o papel materno na vida de Anthony por quase 10 anos.

O mais importante para a polícia, supostamente treinada para investigar crimes, é que a casa está super limpa e arrumada e o menino não estava chorando copiosamente após matar o pai.

A promotora mantém uma fala alinhada com a fala da polícia. Neste ponto, eu já estou xingando os personagens da tv que não podem me ouvir nem retrucar, pois percebo o quanto os agentes todos do sistema são alienados e despreparados para lidar com situações de violência doméstica.

GRUPO DE AJUDA

Eu e 2 amigas expatriadas como eu, lançamos um grupo de ajuda a mulheres como nós que moram no exterior. Depois de 8 anos de atividade, eu sempre me pergunto se sou somente eu que enxergo rapidinho a violência sofrida no âmbito familiar na maioria dos casos que nos chegam e que vejo ilustrados nos jornais e na tv.

Neste grupo, GAMBE, somos hoje quase 30 voluntárias, todas mulheres brasileiras expatriadas e das mais diversas áreas.
Nossa missão é difundir informação correta sobre direitos de mulheres em situação de vulnerabilidade bem como acolher nossas compatriotas em momentos agudos de crise familiar.

Nosso atendimento é gratuito e confidencial.

PEÇA-CHAVE

O assassinato de um pai amoroso e bom provedor pelo filho adolescente mimado sai nos jornais.

Os vizinhos ficaram todos surpresos ao saberem do crime da porta ao lado, naquele bairro pacato de classe média alta onde raramente algo daquele tipo acontece.

Um amigo do homem morto não entende qual a razão para que aquele adolescente estranho poderia ter dado 3 tiros no pai.

O primeiro, quando o pai estava quase derrubando na base de fúria, a porta do quarto onde o filho se encontrava. E outros 2 tiros mesmo após o pai pedir para que o filho não atirasse mais.

Se não fosse a colega de trabalho do adolescente, uma mulher que aparenta ter uns 30 anos, começar a questionar várias informações sobre a vida de Anthony, a história teria acabado em prisão perpétua para Anthony.

Esta colega, que conviveu com o adolescente lado a lado por meses, percebeu algumas estranhezas na história de vida do rapaz.

Anthony não havia frequentado escola, foi homeschooled mas não sabia muito além do básico de ler e escrever e somar e subtrair. E algo que aconteceu havia ficado em sua mente: uma vez, o supervisor recebeu uma ligação do pai de Anthony para perguntar o que o adolescente fazia no trabalho pois percebeu através do GPS instalado no celular do garoto que ele estava imóvel havia meia hora. Anthony trabalhava numa loja de jardinagem e estava cumprindo uma tarefa na loja designada pelo supervisor.

A colega movimentou então uma rede para descobrir se Anthony tinha outros parentes e onde estavam. A partir disso, um escopo muito mais amplo da vida do pai e do filho se abriu.

Art by Jacco Wolters

CAUSA E CONSEQUÊNCIA

Existem muitos estudos que comprovam o impacto negativo de se viver num ambiente onde a violência num relacionamento íntimo acontece.
Crianças crescem normalizando assédios e violências psicológicas, morais, patrimoniais e até mesmo sexuais, quase sempre vindas do pai contra a mãe nas situações onde a violência doméstica ocorre.

A ONU estima que 1 em 3 mulheres sofre violência doméstica. Mas não se engane, este número provavelmente está subestimado já que em vários países é complicadíssimo estimar os reais números de violência doméstica quando policiais despreparados não registram muitas ocorrências causando também um descrédito nas instituições e diminuindo o número de ligações pedindo ajuda.

De acordo com um artigo publicado por Michele Lloyd da Escola de Educação da Universidade de Hertfordshire do Reino Unido, professores ocupam um local privilegiado e devem ser bem treinados para identificar alunos que moram em famílias onde há a presença de violência doméstica.

É importante também contextualizar e conceituar a violência doméstica, mesmo que em algumas formas, ainda não seja criminalizada em alguns países.

A violência doméstica ou a violência num relacionamento íntimo está presente em todos os países e em todas as classes sociais, sem exceção.
É um erro crasso pensar que violência doméstica significa somente violência física. Existem vários tipos de violência doméstica e o controle excessivo dos passos de uma pessoa ou o domínio financeiro é um deles.

Transtorno de estresse pós-traumático, baixa auto-estima, estado constante de ansiedade são somente algumas consequências na saúde de vítimas de violência doméstica inclusive das crianças que vivem neste ambiente tóxico.

Dra Ana Isabel Sani, professora-doutora em psicologia forense na Universidade Fernando Pessoa/Portugal, discute mais a fundo as consequências da exposição de crianças e adolescentes à violência doméstica/ violência interparental em seu artigo intitulado “A exposição da criança à violência interparental: uma violência que não é crime”.
Na introdução do artigo Dra Sani e Diana Cardoso afirmam:

“A exposição à violência interparental é uma forma de maus tratos”

Resumindo, estar exposto a este tipo de violência faz com que a mesma se perpetue em relações afetivas no futuro da criança.
Se faz necessário interromper este ciclo, combatendo ao máximo a violência doméstica e aceitando que a mesma constitui um problema social e não individual.

Quanto ao Anthony, assista a série do Netflix e depois venha participar comigo numa ampla discussão no Clube da Série do GAMBE.

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