Mãe no Exterior

Gambe4Women
7 min readMay 9, 2020

por Stella Furquim e Carina Félix

Há algum tempo, penso, em escrever algo sobre ser mãe no exterior. Este é meu segundo dia das mães sem meus filhos. E para falar a verdade, o primeiro sem eles, teve gosto de férias bem merecidas após 15 anos de maternar na solidão.
Sim, o pai dos meus filhos se referia a eles como “meus projetos” e deixava tudo referente às crianças a meu cargo.
Conhece alguma mulher nesta posição?
Sim, somos milhões. Sejam mães solteiras ou casadas, muitas tem a carga mental e de trabalho a sós mesmo.
Uniforme da escola: em ordem; visitas ao médico, dentista, oculista: em ordem; tem mantimentos pro jantar e pro lanche da escola, cozinhar, lavar e guardar a louça: em ordem; fazer voluntariado na escola: em ordem; roupas limpas e guardadas, cuidar quando a criança tem febre, vomita ou tem um acidente: em ordem; crianças bem humoradas e felizes em ordem e etc……
Sim, geralmente quem faz tudo isso e muito mais são as mães porque muitos pais acreditam que não seja necessário fazerem a parte deles.

“It takes a village to raise a child”

Quando me mudei do Brasil, há 20 anos e 4 anos depois tive meu primeiro filho, passei a ler sobre gravidez, parto, puerpério e criar criança bilíngue. Lia muito material do meu país de origem e do meu novo país, o Canadá, para entender o maternar local e não me sobressair demais como a estranha no ninho, para que meu filho tivesse sim, o bom das duas culturas e tb pudesse não ser, mais tarde, o estranho no ninho ao se relacionar com coleguinhas da escola.
Uma frase prendeu muito minha atenção: “é preciso um povoado para criar um filho”, numa tradução livre.
Mas quem era meu povoado? Meus pais, avós, tios e minhas irmãs bem como meus amigos estavam lá no Brasil. No meu novo país eu tinha poucos amigos e meus “in-Laws” tem a cultura da família nuclear, ou seja, cada um na sua casa. Será que eu daria conta?

Minha mãe veio me ajudar num primeiro momento, foram 2 meses de muita intensidade.
Primeiro filho, casamento sofrendo as consequências e minha mãe ali, com boa vontade mas cheia de hábitos e idéias que não condizem com as minha mentalidade nem nova realidade cultural.

Passei a dar um valor diferente à minha mãe, apreciá-la mais e entender suas escolhas.
Mas com seu retorno ao Brasil, me vi sozinha e a beira de um inverno rigoroso.
Seria eu e meu filho, aprendendo a ser mãe e criança juntos.
Nem preciso dizer que fiquei doente e não tive auxílio, passei muitas noites em claro e senti um misto de saudade, solidão e isolamento muito grandes.
Quando meu filho tinha um ano, comecei a buscar mulheres brasileiras na minha região e na mesma situação. Eu começava a formar meu povoado. Na época não havia redes sociais, conheci uma mãe brasileira na piscina do parque, outra no mercado e uma mãe, descendente de portugueses, no bairro.

Quando meu menino tinha 18 meses, tivemos a primeira reunião do Brasileirinhos em Montreal, com 5 mães.

Unidas em um objetivo comum

Logo nossa rede começou a se expandir. Nossa vila foi crescendo e nos apoiávamos num objetivo comum: afagar a solidão da mãe brasileira no exterior, proporcionar um ambiente onde se falasse português, ouvisse músicas brasileiras, fizéssemos brincadeiras típicas da nossa infância e comíamos merendas que nos remetiam ao passado. Uma vez por mês, nos encontrávamos, no verão pic-nic no parque, no inverno em locais fechados que pudessem acolher nosso grupo que chegou a alcançar o número de 60 famílias.

Herança cultural é importante e deve ser respeitada.

Registrar o nascimento dos filhos no consulado brasileiro, ensinar a língua portuguesa e ter contato constante com Brasil e familiares, mesmo que online, ouvir músicas, ler livros e comer nossas comidas típicas são uma questão de respeito que nossos cônjuges estrangeiros devem ter.
É parte do pacote do casamento intercultural e às vezes até, interracial, estarmos abertos às diferentes de visões e interpretações culturais. Para mim, havia recentemente escolhido mudar de país quando conheci o pai dos meus filhos e houve uma intersecção da imigração, novo relacionamento e este sendo um relacionamento intercultural. Não é fácil.

Direito de Família Brasil X Exterior

Ao conhecer estas mulheres e suas histórias plurais, todas casadas com estrangeiros, todas criando filhos binacionais percebi muitos desafios comuns entre nós.
De fora, existe esta falsa idéia de que se casar com um estrangeiro, morar no exterior seja praticamente um conto de fadas, mas na realidade, temos que reaprender e nos adaptar com muita frequência, afinal tudo começa do zero novamente na vida, tanto o lado bom quanto o ruim. Portanto esta imagem de que tudo é melhor e mais fácil não poderia estar mais equivocada.
Nossa visão do papel da mãe na vida das crianças, é naturalmente regada dos conceitos que estão ligados à nossa cultura.

Do ponto de vista da justiça determinados conceitos devem ser revistos e entendidos quando o assunto são crianças em países diferentes.

No Brasil, em regra, a mãe já possui a guarda de fato da criança, ou seja, é a mãe que fica com a criança, salvo se ocorrer impedimentos previstos em lei em relação à essa mãe, sendo ela ( a guarda) alternada com o pai.

O cenário de guarda no Brasil também vem tendo muitas mudanças nesses últimos tempos, antes a lei previa visitas quinzenais, nos dias atuais, se entende que ambos devem ter o mesmo tempo de convívio com a criança.

Mas e quando temos uma criança fora do Brasil, como entender com quem fica a guarda?

Ainda existem muitas mulheres que pensam que o fato de ter um filho no exterior, terá como consequência a obtenção da residência e/ou cidadania daquele país e a guarda da criança, o que à princípio pode ocorrer em alguns lugares, mas isso pode vir a mudar, porque na verdade quem possui a guarda, o poder de decisão sobre a criança é o país onde a criança nasce, e possui residência habitual, ou dentre os pais, àquele que apresentar melhor situação financeira. Para entender melhor o que foi colocado, será preciso ter que analisar cada caso, se a criança é binacional ( possui 2 nacionalidades ), se a criança nasceu no Brasil e depois veio para o exterior, se ambos os pais são brasileiros e vivem no exterior, se apenas um dos pais possui a nacionalidade daquele país, etc.

Também é muito importante entendermos sobre o tratado de Haia, o que é aplicado quando um dos pais é brasileiro, e sobre alienação parental, porque em caso de disputa de guarda de filhos binacionais, será esse tratado que o Brasil vai seguir, até os 16 anos de idade da criança.

O tratado de Haia foi criado em 1980, como um mecanismo para proteger a criança que era levada do país onde ela havia nascido e possuía residência habitual, sem a autorização de um dos pais.Vários países (93 até 2015) são signatários desse Tratado, incluindo o Brasil.

A Convenção de Haia/ Tratado estabelece que em caso de disputa de guarda de crianças binacionais, o que vale é O MELHOR INTERESSE DA CRIANÇA, ou seja, o repatriamento da criança, ao país que lhe oferece melhores condições de vida, mesmo que para isso, a mãe se torne secundária nesse papel.

São inúmeros os casos de repatriamento em caso de disputa de guarda , tendo o Brasil, mandado de volta várias crianças para o países signatários da mencionada Convenção, mesmo que sem a presença da mãe.

Maternar após o divórcio no exterior

Nem sempre uma união é pra sempre, muitas vezes não é. Especialmente em casais multiculturais já que as diferenças podem se mostrar maiores ainda após o nascimento dos filhos, e é justamente aí que começa uma luta extremamente injusta e desigual, para que a mãe possa permanecer com seu filho.

Não importa nesse momento se você, mãe, possui dupla cidadania, sempre seremos vistas como imigrantes, mulheres e brasileiras. O estereótipo masculino, e patriarcal ainda prevalece muito nos dias de hoje, e por abrirmos mão de nossas carreiras, trabalhos que nos dariam boa colocação e remuneração para cuidarmos de nossas famílias, nos tornamos reféns desse casamento, para não perdermos a guarda de nossos filhos.

Para que a mãe possa ter chance de permanecer com seu filho em país estrangeiro, ela deve comprovar que possui meios de se manter e manter a criança, de uma forma melhor que o pai.

Tendo em vista tudo o que foi previamente mencionado, aconselhamos que deve-se sempre optar por meios de disputa de guarda menos traumáticos, como a mediação.

A mediação é um mecanismo utilizado para que os pais possam chegar a um acordo de guarda e visitação com a ajuda de uma profissional-mediador(a), que de maneira imparcial irá guiá-los para um convívio mais harmonioso e adequado para cada situação, cabendo à justiça, apenas a homologação do que fora acordado pelos pais através da mediação.

Hoje, queremos desejar um Feliz Dia das Mães, a todas as mães e mandar um afago especial para as mães migrantes. Sintam-se acolhidas e saibam que vocês não estão sós.

Este texto foi escrito à quatro-mãos por Stella Furquim e Carina Félix, mães expatriadas.
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Photo by Nathan Dumlao on Unsplash

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