O mito do “Stranger Danger”

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3 min readMay 19, 2021

by Stella Furquim

O mito do perigo que vem do desconhecido, em inglês “stranger danger” é um conceito que toda criança aprende em casa. “Não fale com estranhos”, “Não aceite doces de quem você não conhece” são alguns dos conselhos que todos nós já ouvimos dos pais que temem que seus filhos sejam sequestrados, violados e até mortos por estranhos perversos que andam pelas ruas. Existem também inúmeros filmes que perpetuam esta ideia, mas será que o maior perigo está na rua?

Segundo especialistas, 80% dos casos de violência sexual contra crianças acontecem dentro do círculo familiar ou conhecido da criança como pais, padrastos, tios, avós, amigos da família, orientador espiritual ou mesmo treinadores de esportes.

“A cada hora, quatro meninas menores de 13 anos são estupradas no Brasil, de acordo com os números mais recentes. Mais da metade das 5.636 vítimas em 2019 tinha menos de 13 anos

Photo by Kat J on Unsplash

E isto é apenas a ponta do iceberg, pois considera apenas o que chega aos ouvidos da polícia ou dos serviços de saúde. “A violência sexual contra crianças está envolvida por um pacto de silêncio”, enfatiza Márcia Bonifácio” segundo reportagem (link abaixo).

Não são só as meninas que são vítimas de violação sexual de vulnerável. Meninos, apesar de não serem o alvo principal de abusadores, também são vítimas deste tipo de crime.

O livro “La Famille Grande” da francesa Camille Kouchner, filha de um ex-ministro francês, inspirou o movimento #MeTooInceste naquele país após trazer à tona os abusos sexuais vividos por seu irmão gêmeo infringidos pelo padrasto das crianças, Olivier Duhamel, um cientista político francês.

Este livro toca num ponto importante, todo silêncio que envolve tambem o abuso sexual contra meninos. Afinal existe o tabu sobre a sexualidade do menino/rapaz que foi abusado sexualmente. É a masculinidade tóxica limitando meninos a agirem e pedirem ajuda.

Segundo a organização Memórias Masculinas, a cada 3 horas ocorre uma violação sexual contra meninos e jovens no Brasil e os meninos estão começando a falar mais e mais.

Uma das maiores preocupações sobre qualquer tipo de violência é com o legado que ela pode deixar. Quando não acolhidos devidamente, vítimas de abuso sexual, bem como vítimas de outros tipos de violência, podem vir a perpetuar o ciclo da violência contra mulheres e crianças em geral.

Em 2019, a atriz brasileira radicada em Nova York, Nina Marchetti, lançou uma peça autobiográfica chamada “A flor da matriarca” onde relatava o abuso sexual sofrido dentro do consultório médico. Nina inspirou e foi porta-voz do movimento #ondedói que deu luz a este tipo de situação e deu voz a crianças violadas.

Outro movimento que mexeu com as estruturas de forma jamais vista no Brasil foi através do grupo de apoio COAME — combate ao abuso no meio espiritual liderado pela saudosa Sabrina Bittencourt, vítima de violência no meio espiritual na juventude, Sabrina através da COAME desmascarou o guia espiritual conhecido pelo nome João de Deus dentre outros escancarando ainda mais situacoes que haviam se tornado conhecidas no mundo como abuso sexual na igreja católica em escolas e grupos no mundo todo.

Vale lembrar também que no esporte, crianças não estão livres de violação sexual por parte de treinadores e médicos envolvidos no processo. Recentemente casos nas equipes de ginastas brasileiras e americanas deixaram muito claro que o perigo está bem presente no dia a dia dos jovens atletas e nem sempre os pais desconfiam ou denunciam a fim de não prejudicarem a carreira dos filhos.

Isso é uma tremenda contradição já que são vítimas e não deveriam ter vergonha.

A escola tem um papel fundamental no combate a todos os tipos de violência que podem ocorrer contra crianças. Sejam elas vítimas “indiretas” de violência doméstica ou vítimas de violência sexual no meio familiar, profissionais envolvidos no dia-a-dia das criancas podem detectar mudancas de comportamento e/ou rendimento escolar.

Outra colaboração importante no meio escolar vem através da educação sexual nas escolas. Entender o que é violência, se auto-identificar como vítimas, saber onde pedir ajuda e obter acolhimento propício pode ser uma ferramenta poderosa contra essas violências que afetam nossas crianças.

GAMBE oferece algumas soluções para desmistificar alguns conceitos sobre situações de violência contra crianças, jovens e em relacionamento íntimo. Contacte-nos para saber mais.

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Fontes:

https://brasil.elpais.com/brasil/2021-05-18/quatro-meninas-brasileiras-estupradas-por-hora-um-crime-generalizado-e-silenciado.html

www.memoriasmasculinas.org

www.facebook.com/coamebr

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